Por trás daquelas dislipidemias...



Hoje no Consultório atendi um caso que me deixou, como diria vovó, "desconjuntado".


Um homem de seus 50 anos de idade (João, nome fictício), que veio na consulta anterior para um "exame de check-up", já tinha saído do consultório da vez passada um pouco frustrado com a pouca quantidade de exames que pedi na consulta passada, uma vez que o único risco próprio dele mesmo era seu tabagismo ativo, e um histórico familiar por parte do pai, mas acima dos 70 anos. Por conta de um leve aumento da PA, que podia ser uma Hipertensão do Jaleco Branco, ganhou um MAPA, e solicitei sua rotina adequada para manutenção da saúde para aquela idade, além de iniciar a abordagem para cessação do tabagismo.


Nesta primeira consulta já reparava ele um tanto ansioso, estava fazendo "baterias de exames" para saber se "estava tudo bem para mostrar pro especialista em fertilização", pois estava tentando com sua esposa outro filho... sua filha falecera há pouco mais de um ano, por motivo que não quis revelar. Respeitei.


Pois bem... hoje me retorna este jovem senhor, com os exames na mão. MAPA normal, demais exames normais, mas uma miríade de alterações lipídicas: HDL de 28 (baixíssimo), LDL de 155, Triglicérides de 262. Quando ele me vê anotando os exames, emenda:


"Tá tudo alterado né doutor? Eu vi. Acho que vou fazer a dieta da minha esposa e já comecei a caminhar"


Ao que eu disse:


"Opa, maravilha. Se isso já serviu para mudar alguns hábitos, já tá valendo. Mas deixa eu calcular uma coisinha aqui pra conversarmos"


Calculei calmamente o Risco Cardiovascular em 10 anos e abri a conversa:


" João. Tem várias alterações no seu perfil lipídico. Mas o fato de você fumar talvez seja a principal razão para todas estas alterações. Este aqui (mostro um infográfico) é o risco de alguém como você, com os mesmos resultados de exame, com a mesma PA, idade, etc, ter o que chamamos de desfecho cardiovascular em 10 anos (seu risco era intermediário, de 16%). Antes de falar de colesterol eu queria falar do cigarro... pode ser?"


Pronto, joão começa a chorar.


Me conta detalhes sobre o trágico falecimento da filha. A missa de um ano do seu falecimento, no mesmo dia da missa de sétimo dia de falecimento de sua mãe, no início do ano. O Pai, com diagnóstico recente de câncer de próstata metastático. Vem nos último meses na tentativa de engravidar com a esposa, mas, sem sucesso, têm procurado uma clínica de fertilidade.


"Doutor. Não me tire o cigarro. Eu sei de tudo que ele causa. Mas hoje, ele é meu amigo, um dos poucos consolos que tenho. Não posso prometer nada que seja parar com o cigarro. O senhor agora entende né?"


Eu, atordoado:


"Entendo João. Eu iria dizer que ele nunca será seu amigo, por conta do que pode fazer a você no médio e longo prazo. Mas hoje eu entendo o lugar que ele tem na sua vida."


A conversa foi bem mais extensa do que isso. Dei espaço pra ele se colocar e falar o que sentiu ao ver os exames do colesterol. "Tudo, menos tirar meu cigarro agora".


Tudo bem. Conversamos sobre as estatinas. Falei dos efeitos colaterais e riscos. A decisão dele foi de iniciar o tratamento, mesmo sabendo que talvez, apenas com a cessação do tabagismo, tudo aquilo resolvesse.


Prescrevi. Foi o nosso acordo. Um retorno dali a alguns meses para reavaliarmos.


Quando João saía do consultório, agradeceu:


"Doutor, se a gente tiver mais um filho, o ciclo da vida se renova. Acho que consigo sair do cigarro se minha esposa engravidar. O senhor vai querer tirar esse remédio né?"


Eu disse que sim, muito provavelmente.


Foi a estatina mais doída que já prescrevi na minha vida.


Mas foi a primeira estatina que deve "voar no pau" com o feliz nascimento de uma criança, pelo menos que meus olhos tenham visto...


Nem sempre os Guidelines se encaixam na vida. Nem sempre nossa obstinação da prevenção quaternária também. Hoje foi daqueles dias que a Medicina gritou na minha cara que é muito mais do que interpretar exames e saber prescrever. E hoje agradeci por ter me forjado médico de família e comunidade.



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